{"id":162,"date":"2013-10-01T14:43:32","date_gmt":"2013-10-01T14:43:32","guid":{"rendered":"http:\/\/matecomangu.org\/cerolfininho\/?p=162"},"modified":"2015-02-09T14:48:08","modified_gmt":"2015-02-09T14:48:08","slug":"entrevista-para-a-revista-cultura-rj-sobre-o-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/matecomangu.org\/cerolfininho\/entrevista-para-a-revista-cultura-rj-sobre-o-livro\/","title":{"rendered":"Entrevista para a revista Cultura.RJ"},"content":{"rendered":"<p>Muito bacana essa entrevista\u00a0para a revista Cultura.RJ sobre o livro. Colabora\u00e7\u00e3o da jornalista Renata Saavedra.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cultura.rj.gov.br\/entrevistas\/o-cerol-fininho-da-baixada\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cultura.rj.gov.br\/entrevistas\/o-cerol-fininho-da-baixada<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cCara, vou fazer um filme sobre o Jardim Primavera\u201d. Na frase despretensiosa e ao mesmo tempo arrebatadora de Igor Barradas, que em 2000 decidiu filmar seu pr\u00f3prio bairro, come\u00e7a a hist\u00f3ria do <a href=\"http:\/\/matecomangu.org\/site\/\" target=\"_blank\">Mate com Angu<\/a>, cineclube que bate ponto toda \u00faltima quarta-feira do m\u00eas na<a href=\"http:\/\/mapadecultura.rj.gov.br\/duque-de-caxias\/sociedade-musical-e-artistica-lira-de-ouro\/\" target=\"_blank\">Sociedade Musical e Art\u00edstica Lira de Ouro<\/a> mas circula por todos os cantos \u2013 j\u00e1 teve sess\u00e3o do Mate at\u00e9 em Paris.<\/p>\n<p>Heraldo HB \u00e9 um dos fundadores do Mate com Angu e faz quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o \u00e9 o l\u00edder: \u201csomos um bonde, um bando\u201d. E \u00e9 o bando que apresenta o livro que Heraldo lan\u00e7a em agosto como uma \u201cviagem sobre audiovisual, cultura, Baixada universal, ativismo e se-virismo, tendo os dez anos do Mate como guia\u201d. Uma viagem que leva a um dos lemas do Mate com Angu, reafirmado em cada sess\u00e3o e em cada mesa de bar em que essa turma pensa e produz: \u201cA Baixada Fluminense \u00e9 cinematogr\u00e1fica por excel\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Duque de Caxias foi um munic\u00edpio muito estigmatizado. Voc\u00ea menciona no livro o \u201cbullying midi\u00e1tico\u201d sofrido pela cidade e como essa imagem sempre gerou uma \u201ccarga pesada do ser caxiense\u201d. A ideia do Mate com Angu era justamente revelar a riqueza de Caxias. Como voc\u00ea v\u00ea o papel do Mate no redescobrimento da cidade e da Baixada?<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho do Mate surgiu no momento exato desse ponto de virada, em que come\u00e7ou tamb\u00e9m a populariza\u00e7\u00e3o do digital e da internet. Isso trouxe a possibilidade de as pessoas conhecerem o que \u00e9 produzido aqui. A grande m\u00eddia mostra tudo muito por alto, o que aparece \u00e9 o estigma. A hist\u00f3ria do Mate \u00e9 uma esp\u00e9cie de panorama de como essa guerrilha cultural \u2013 que o Mate encara junto com outros coletivos e artistas \u2013 tem revertido essa imagem da Baixada. Quisemos e queremos incluir a Baixada no imagin\u00e1rio nacional. Muita coisa que a gente v\u00ea aqui de hist\u00f3ria, texturas, gentes, n\u00e3o \u00e9 representado, o estado e o pa\u00eds n\u00e3o conhecem. Tem uma galera que fortalece essa guerrilha cultural com o Mate: o Buraco do Get\u00falio [cineclube de Nova Igua\u00e7u], o Donana [centro cultural de Mesquita], o movimento rock da Baixada que tem formado uma galera muito militante&#8230; Essa galera come\u00e7ou a descobrir quem j\u00e1 estava na estrada, e assim vamos nos conectando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea menciona tr\u00eas impactos \u201cfazedores de cabe\u00e7a\u201d ligados ao audiovisual importantes na sua forma\u00e7\u00e3o \u2013 Vidas Secas, Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere, do Nelson Pereira dos Santos, e a TV Maxambomba. Dentre produ\u00e7\u00f5es mais recentes, quais voc\u00ea destacaria nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Tem tanta coisa que deu uma mexida em mim nos \u00faltimos anos, \u00e9 dif\u00edcil lembrar assim&#8230; O <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=R4ju_qxCca4\" target=\"_blank\">Serras da Desordem<\/a>, do Andrea Tonacci (Brasil, 2006) \u00e9 um bom exemplo, feito por uma galera da antiga do cinema. Tem muita coisa marcante tamb\u00e9m nessa produ\u00e7\u00e3o digital, mas n\u00e3o consigo lembrar agora (risos).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O nome do Mate com Angu foi inspirado na hist\u00f3ria da Escola Regional de Meriti. Quando voc\u00ea conheceu essa hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Essa escola foi criada em 1921 pela Armanda \u00c1lvaro Alberto, uma mulher fascinante. Ela era uma vision\u00e1ria que escrevia em defesa da educa\u00e7\u00e3o, da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, da igualdade racial, contra o autoritarismo dos governantes, etc. A escola era a sua paix\u00e3o e foi um exemplo revolucion\u00e1rio que foi praticamente apagado da mem\u00f3ria nacional. A escola foi a primeira do pa\u00eds a ter hor\u00e1rio integral, orienta\u00e7\u00e3o progressista, a ter uma biblioteca, um museu natural e um receptor de r\u00e1dio, entre outros avan\u00e7os. Al\u00e9m disso, foi a primeira escola da Am\u00e9rica Latina a servir merenda escolar, e da\u00ed o apelido \u201cmate com angu\u201d&#8230; Como nas doa\u00e7\u00f5es dos comerciantes locais sempre tinha fub\u00e1 e erva-mate, muitas vezes havia essa combina\u00e7\u00e3o na refei\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Sempre fui muito apaixonado por hist\u00f3ria e, desde moleque, quando soube da hist\u00f3ria dessa escola e da Armanda, fui fu\u00e7ando, fu\u00e7ando, at\u00e9 ler tudo que tinha sido publicado sobre o assunto. E eu me dediquei a divulgar isso, sempre contei para todo mundo, e sugeri o nome quando criamos o cineclube. As gera\u00e7\u00f5es mais novas estavam perdendo essa refer\u00eancia, mas o Mate ajudou a resgatar essa hist\u00f3ria. Agora a Armanda est\u00e1 come\u00e7ando a ser reconhecida, tem sido homenageada em v\u00e1rios lugares, e \u00e9 legal saber que ajudamos a tornar essa hist\u00f3ria conhecida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m associa o nascimento do Mate \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de uma brecha em rela\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0 tecnologia digital que mudaria totalmente a forma como a produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o da cultura se dariam dali para frente. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia da democratiza\u00e7\u00e3o das tecnologias digitais para o Mate com Angu \u2013 e para um novo modelo audiovisual?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o dava para pensar o Mate sem isso. O Mate surge de um contexto popular, n\u00f3s n\u00e3o somos s\u00f3 da Baixada, temos limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas tamb\u00e9m. O digital j\u00e1 existia antes, mas n\u00e3o era t\u00e3o barato \u2013 tanto as c\u00e2meras quanto os projetores. Mas quando o Igor fez o filme [Progresso Primavera, de 2001] a gente viu que a brecha estava aberta, que dava para fazer e que era a hora de as coisas acontecerem. A gente apostou tudo nisso. E a gente estava certo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Mate com Angu foi para a Lira de Ouro por acaso, mas foi um acaso muito feliz pois a Lira \u00e9 um espa\u00e7o s\u00edmbolo da cultura independente de Caxias. Como foi adotar esse endere\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p>O Mate com Angu tamb\u00e9m realiza sess\u00f5es e atividades em escolas, faculdades, eventos culturais, etc, mas nossa casa \u00e9 mesmo a Lira do Ouro. Antes de ocuparmos a Lira j\u00e1 existia o desejo, mas a concretiza\u00e7\u00e3o foi por acaso. As sess\u00f5es aconteciam no Sindicato dos Banc\u00e1rios e, no dia em que programamos o <strong>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/strong>, com uma boa divulga\u00e7\u00e3o via internet, SMS de celular, cartazes colados na madruga e panfletagem, chegamos l\u00e1 e o espa\u00e7o estava fechado por causa da greve dos banc\u00e1rios. Na hora entramos em contato com um diretor da Lira de Ouro e migramos o evento para l\u00e1. Foi assim, em setembro de 2004, que as sess\u00f5es regulares do Mate passaram a se dar na Lira de Ouro.<\/p>\n<p>A Lira de Ouro \u00e9 um s\u00edmbolo para a cidade. J\u00e1 era um s\u00edmbolo quando era uma banda [fundada na d\u00e9cada de 1950], depois caiu no ostracismo e a gente descobriu que os velhinhos iam perder a sede. Essa situa\u00e7\u00e3o aglutinou um ex\u00e9rcito cultural da cidade para salvar a sede, revitalizar a banda e colocar o espa\u00e7o a servi\u00e7o da cultura na cidade. Foram anos de lutas para proteger esse espa\u00e7o. O Mate estar ali n\u00e3o mostra s\u00f3 uma simbiose, mas refor\u00e7a uma trincheira cultural que refor\u00e7amos aqui em Caxias.<\/p>\n<p>O que acontece na Lira \u00e9 um exerc\u00edcio coletivo de a\u00e7\u00e3o, com dan\u00e7a, samba, rock, cinema , teatro, hip hop. \u00c0s vezes na sexta tem samba, no s\u00e1bado tem rock, no domingo tem hip hop, quarta \u00e9 dia de Mate, e todo mundo se entende. \u00c9 um espa\u00e7o plural de verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Mate com Angu nasceu como uma experi\u00eancia coletiva, sem a figura de um l\u00edder \u2013 pensado como um bonde, um bando, como voc\u00ea diz no livro. Como \u00e9 para voc\u00ea n\u00e3o liderar, mas representar esse bando?<\/strong><\/p>\n<p>A gente sempre quis ter essa meta de n\u00e3o ter um l\u00edder, que \u00e9 dif\u00edcil. Eu penso muito nisso, os movimentos sociais precisam exercitar mais as formas de organiza\u00e7\u00e3o, pensar a lideran\u00e7a. Tem grupos que se dizem coletivos mas tem sempre uma mesma pessoa falando. A gente tenta n\u00e3o centralizar, quem vai chegando vai fazendo as coisas, dando entrevistas, etc. Uma coisa de lideran\u00e7a de paj\u00e9, n\u00e3o de cacique. Mas \u00e9 um exerc\u00edcio constante, que fazemos nesses 11 anos de Mate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E o futuro do Mate do Angu?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei, o futuro \u00e9 incerto pra caramba. Estamos agora enfrentando um dilema, por querer fazer as coisas com mais enraizamento, mas n\u00e3o d\u00e1 para saber. O futuro \u00e9 uma inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Cerol Fininho da Baixada &#8211; Hist\u00f3rias do cineclube Mate Com Angu<\/strong>ser\u00e1 lan\u00e7ado no pr\u00f3ximo dia 8, quinta-feira, na Livraria da Travessa do Centro Cultural do Banco do Brasil (Av.Primeiro de Mar\u00e7o, 66 &#8211; Centro). O livro integra a cole\u00e7\u00e3o Tramas Urbanas, da editora Aeroplano.<\/p>\n<p class=\"bold\"><em>Colabora\u00e7\u00e3o de Renata Saavedra<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito bacana essa entrevista\u00a0para a revista Cultura.RJ sobre o livro. Colabora\u00e7\u00e3o da jornalista Renata Saavedra. http:\/\/www.cultura.rj.gov.br\/entrevistas\/o-cerol-fininho-da-baixada &nbsp; \u201cCara, vou fazer um filme sobre o Jardim Primavera\u201d. 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