{"id":2540,"date":"2020-05-15T13:19:41","date_gmt":"2020-05-15T13:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/?p=2540"},"modified":"2020-05-15T13:42:30","modified_gmt":"2020-05-15T13:42:30","slug":"filme-corra-terror-ou-comedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/filme-corra-terror-ou-comedia\/","title":{"rendered":"Filme &#8220;Corra!&#8221;: terror ou com\u00e9dia?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A busca de defini\u00e7\u00e3o do g\u00eanero do filme est\u00e1 presente em diversos debates; longa est\u00e1 dispon\u00edvel no Netflix<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O filme de Jordan Peele, exibido no Brasil com o nome de <em>Corra!<\/em>&nbsp;(2017)&nbsp;foi um sucesso mundial de bilheteria, com um lucro de cerca de 252 milh\u00f5es de d\u00f3lares. E indicado ao Oscar para concorrer nas categorias de melhor filme, diretor, ator e roteiro original. Ganhou em melhor roteiro escrito por Peele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jordan Peele ganhou repercuss\u00e3o como diretor, tendo uma trajet\u00f3ria no humor, com <em>Mad TV e Key &amp; Peele<\/em> \u2013 com Keegan-Michael Key. Dirigiu <em>Us&nbsp;<\/em>(2019) no g\u00eanero terror e debate sobre racismo. E produziu: <em>Infiltrado na Klan<\/em>&nbsp;(2018) de Spike Lee, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado; <em>Hair Love <\/em>(2019), curta de anima\u00e7\u00e3o; e, o aguardado para este ano, <em>A lenda de Candyman<\/em>&nbsp;de Nia DaCosta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas afinal, <em>Corra!,<\/em> \u00e9 com\u00e9dia ou terror? A busca de defini\u00e7\u00e3o do g\u00eanero do filme est\u00e1 presente em diversos debates &#8211; seja pela trajet\u00f3ria do diretor, seja pela op\u00e7\u00e3o do diretor em dirigir, escrever roteiro e produzir filmes do g\u00eanero thriller. A minha an\u00e1lise \u00e9 de uma perspectiva sociol\u00f3gica e se debru\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es sociais entre brancos e negros numa sociedade estruturalmente racista. Logo pode ser um tema assustador. Pode mesmo ser macabro retratar o que pode ser feito com homens e mulheres pretas\/os.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<em>Corra!&nbsp;<\/em>\u00e9 uma s\u00e1tira ser\u00edssima de como uma sociedade, fundada no hist\u00f3rico da escravid\u00e3o de africanos sequestrados para as Am\u00e9ricas, busca permanentemente escravizar a psique de mulheres e homens pretos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O \u201cterror\u201d est\u00e1 a\u00ed: o quanto \u00e9 perturbador para pessoas pretas adentrar o espa\u00e7o dominados por brancos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A trama do filme se desenrola nos Estados Unidos. No contexto de Barak Obama j\u00e1 ter presidido o pa\u00eds por duas vezes.&nbsp;O filme como produto cultural da vida social se prop\u00f5e a tratar de&nbsp;determinados aspectos que podem ser destacados de diferentes formas para quem ver. Por exemplo,&nbsp;Spike Lee,&nbsp;declarou que viu o filme primeiro com uma plateia branca e que depois viu o filme com uma plateia negra. O filme conseguiu provocar os dois p\u00fablicos, com rea\u00e7\u00f5es distintas em diferentes cenas. E que segundo ele foi o que o fez convidar Peele para participar da produ\u00e7\u00e3o de<em> Infiltrado na Klan<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Estranhamento para uns e naturaliza\u00e7\u00e3o para outros. Na Introdu\u00e7\u00e3o de <em>Get Out&nbsp;<\/em>j\u00e1 \u00e9 apresenta a quest\u00e3o que quero tratar: um personagem e o seu n\u00e3o-lugar. Um homem negro jovem num bairro de classe m\u00e9dia branca. Ele diz ao celular, enquanto tenta se achar, \u201c_estou me sentindo um peixe fora d\u2019\u00e1gua\u201d. Tenta localizar a dire\u00e7\u00e3o para onde est\u00e1 indo encontrar algu\u00e9m: O lugar se torna assustador para ele, como um \u201clabirinto\u201d que n\u00e3o encontra a sa\u00edda e o amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>No filme, como na vida social, cada personagem \u00e9 for\u00e7ado a ocupar seu lugar e a seguir um&nbsp;script.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A arma\u00e7\u00e3o da trama, no primeiro momento, apresenta o casal inter-racial. Chris \u00e9 negro, e Rose, a namorada branca. Ele \u00e9 retratado pelas fotos que faz: cenas cruas e melanc\u00f3licas do cotidiano negro. Ela aparece nas compras da padaria, como uma mo\u00e7a am\u00e1vel. O primeiro di\u00e1logo \u00e9 sobre a ida dele \u00e0 casa da fam\u00edlia dela e o desconforto: \u201celes sabem que sou negro?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 carinhosa e d\u00e1 garantias que ele n\u00e3o corre perigo: \u201cmeu pai teria votado pela terceira vez no Obama\u201d. O que \u00e9 confirmado posteriormente pelo pr\u00f3prio, Dean Armitage.<\/p>\n\n\n\n<p>Repleto de detalhes, ora mais ora menos sutis, <em>Corra!<\/em>, recoloca a encena\u00e7\u00e3o social na distin\u00e7\u00e3o de brancos sobre negros atrav\u00e9s de: \u201cbrincadeiras\u201d; interrogat\u00f3rios que os Armage fazem a Chris sobre seu pai e sua m\u00e3e; da vigil\u00e2ncia ao seu \u201cp\u00e9ssimo h\u00e1bito de fumar\u201d; e sobre uma suposta superioridade cultural. Ao mostrar os c\u00f4modos da casa e pe\u00e7as de decora\u00e7\u00e3o definidas como ex\u00f3ticas, Dean diz: \u201c\u00c9 um privil\u00e9gio poder vivenciar a cultura de outra pessoa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A supremacia branca imposta foi confrontada pelos negros nos EUA e no mundo. No filme \u00e9 apresentada como \u201co motivo da fama\u201d do patriarca da fam\u00edlia Armitage: a derrota do av\u00f4 pelo corredor Jess\u00e9 Owens, na qualificat\u00f3ria das Olimp\u00edadas de 1936, em Berlim. Chris solta: \u201cDeve ter sido dif\u00edcil pro seu pai\u201d. Dean responde com sarcasmo: \u201cEle quase superou\u201d. \u00c9 quando os personagens se olham frente-a-frente e Chris interrompe Dean e diz com um sorriso no canto da boca: \u201cOwens venceu na frente do Hitler\u201d. E Dean rebate: \u201cAparece esse cara negro, e o contradiz (Hitler) diante o mundo todo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Chris \u00e9 afetado em v\u00e1rios momentos pela loucura tramada. Ele vai sacando e intuindo o inc\u00f4modo. Desde o veado atropelado que o remete ao que venha a ser a sua perda mais profunda, a morte de sua m\u00e3e, e o de se sentir s\u00f3 no mundo. A morte do animal que foi tratada com banaliza\u00e7\u00e3o pelo o pai de Rose, pois, segundo ele, \u00e9 uma praga que deve ser eliminada. A perda de Chris, da sua m\u00e3e num atropelamento, \u00e9 usada pela m\u00e3e de Rose, Missy, psiquiatra, na hipnose para sugestionar a domina\u00e7\u00e3o ps\u00edquica dele.<\/p>\n\n\n\n<p>A trama do filme se desenrola nas tens\u00f5es aterrorizantes que Chris vive na casa dos Armitage ao encontrar os brancos e tamb\u00e9m os negros submissos e com os olhares perdidos. Walter, Georgina e Logan parecem enlouquecidos, desencaixados da realidade e s\u00e3o estranhados por Chris. Por que se comportam daquele jeito catat\u00f4nico e domesticado? O que de macabro aconteceu com eles? Da\u00ed para frente \u00e9 o desenrolar da festa dos brancos que \u00e9 o terror para os negros.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o as perdas de cada personagem que s\u00e3o exploradas para a subjuga\u00e7\u00e3o. Walter \u00e9 o caseiro negro na casa branca, um corpo sem alma, deposit\u00e1rio da perspectiva branca, do trabalho bra\u00e7al que lhe foi imposto naquele lugar. E Georgina, a mulher negra, empregada submissa, colocada dentro da casa branca como um utens\u00edlio dom\u00e9stico dos anos 50. Um corpo negro sem sua alma, sem suas experi\u00eancias de vida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O filme nos faz refletir sobre como mulheres e homens pretos s\u00e3o violentamente constrangidos nos espa\u00e7os dominados por brancos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As experi\u00eancias produzidas para subjugar as subjetividades, sobretudo, em momentos decisivos da vida e da sobreviv\u00eancia. O racismo que incute que homens e mulheres pretos\/as s\u00e3o \u201cdesajustados\u201d. Ou seja, aqueles que n\u00e3o pertencem ao lugar, ao mesmo tempo, que \u00e9 conveniente os t\u00ea-los como presen\u00e7as subordinadas.<\/p>\n\n\n\n<p>E isto \u00e9 enlouquecedor, pois, foram agressivamente submetidos a deixarem quem s\u00e3o, se esvaziaram da hist\u00f3ria dos seus corpos. Foram negadas as suas mem\u00f3rias das suas trajet\u00f3rias de mulheres e homens pretos. A subjuga\u00e7\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o f\u00edsica e da domina\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, \u00e9 Logan, personagem dominado, que num acesso de louca lucidez, a partir do \u201cflash\u201d acionado por Chris ao tirar uma foto, que soa o alarme: \u201ccorra!\u201d, \u201cfoge!\u201d. E Rod, o amigo do protagonista, fora do espa\u00e7o branco, cr\u00edtico \u00e0 ida de Chris ao ambiente branco dos Armitage, num di\u00e1logo constante, \u00e9 quem pode ajudar a virar o jogo. Corra! Ou contra-ataque para sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Carmen Castro \u00e9 soci\u00f3loga, atendeu ao convite do Cineclube Mate Com Angu&nbsp;e escreveu sobre o filme &#8220;Corra!&#8221; de Jordan Peele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Mariana Pitasse<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A busca de defini\u00e7\u00e3o do g\u00eanero do filme est\u00e1 presente em diversos debates; longa est\u00e1 dispon\u00edvel no Netflix O filme de Jordan Peele, exibido no Brasil com o nome de Corra!&nbsp;(2017)&nbsp;foi um sucesso mundial de bilheteria, com um lucro de cerca de 252 milh\u00f5es de d\u00f3lares. E indicado ao Oscar\u2026 <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/filme-corra-terror-ou-comedia\/\">Ler o post inteiro<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":2541,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2540","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"views":2047,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2540","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2540"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2540\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2543,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2540\/revisions\/2543"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2540"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2540"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2540"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}