{"id":2977,"date":"2022-11-11T17:47:04","date_gmt":"2022-11-11T17:47:04","guid":{"rendered":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/?p=2977"},"modified":"2022-12-21T12:38:35","modified_gmt":"2022-12-21T12:38:35","slug":"marte-um-filme-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/marte-um-filme-familia\/","title":{"rendered":"Marte Um &#8211; Filme Fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"\n<p>Todos os filmes s\u00e3o documentos no tempo. Mesmo os piores ou os mais dentro do esquema hegem\u00f4nico t\u00eam signos em sua proje\u00e7\u00e3o que dizem muito sobre a \u00e9poca em que foram produzidos. &#8220;Marte Um&#8221;, do diretor Gabriel Martins, talvez seja o mais relevante e bonito filme sobre os anos Bolsonaro. Esse tempo em que tivemos nossa fr\u00e1gil e imperfeita democracia amea\u00e7ada pela extrema direita torpe e fascista. Algo t\u00e3o bizarro que nos \u00e9 dif\u00edcil compreender como uma figura t\u00e3o caricata e escrota, t\u00e3o vil\u00e3o de filme ruim, chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto. S\u00f3 o tempo para nos ajudar a compreender &#8211; o tempo e filmes como Marte Um.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que Marte Um seja um filme que n\u00e3o aponte seu olhar para Bras\u00edlia ou para o dito cujo. As c\u00e2meras aqui est\u00e3o apontadas para a intimidade dos Martins, fam\u00edlia negra, classe trabalhadora, moradora da periferia de Contagem, cidade da regi\u00e3o metropolitana de BH. A amea\u00e7a do fascismo, de viver num pa\u00eds que n\u00e3o apresenta perspectivas, est\u00e1 fora da casa dos Martins. Se apresenta num fragmento de TV ali, numa not\u00edcia de r\u00e1dio acol\u00e1, e principalmente, nos poderosos sil\u00eancios que os personagens emitem.<\/p>\n\n\n\n<p>Marte Um capta, com for\u00e7a, o debate p\u00fablico dos \u00faltimos quatro anos, sem desperdi\u00e7ar uma linha sequer do roteiro com falas panflet\u00e1rias. O que \u00e9 um al\u00edvio. Se tem algo que \u00e9 t\u00f3xico no Cinema brasileiro, que tem muito em nossa produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 a linguagem panflet\u00e1ria, o tom professoral, aquela postura pedante de quem acha que \u00e9 preciso ensinar algo ao povo. Muitos filmes bons, \u00f3timos inclusive, caem nesse v\u00edcio. Posso dizer que Marte Um nem foge dessa armadilha, n\u00e3o foge porque n\u00e3o passa nem perto.<\/p>\n\n\n\n<p>E para mim este fato se deve ao lugar de fala do diretor Gabriel Martins e da produtora Filmes de Pl\u00e1stico. Ambos s\u00e3o da periferia, falam de l\u00e1. N\u00e3o s\u00e3o realizadores que sa\u00edram da classe m\u00e9dia para filmar o pov\u00e3o. Eles s\u00e3o pov\u00e3o, e isso faz toda diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/marteum-2.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"465\" src=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/marteum-2-1024x465.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2982\" srcset=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/marteum-2-1024x465.jpeg 1024w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/marteum-2-300x136.jpeg 300w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/marteum-2-768x349.jpeg 768w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/marteum-2.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>O filme tem uma dire\u00e7\u00e3o muito talentosa, uma fotografia delicada de Leonardo Feliciano, uma arte precisa (e preciosa) de Rimenna Proc\u00f3pio, mas o elenco arrebenta muito, meu Deus. Principalmente Rejane Faria, que interpreta T\u00e9rcia, a matriarca dos Martins. E Carlos Francisco, que d\u00e1 corpo ao patriarca, Wellington. Me faltam palavras para descrever o que os dois fazem em cena. Mas vou tentar.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e9rcia traz aquela preocupa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de m\u00e3e: o que ser\u00e1 dos filhos, da fam\u00edlia, o que ser\u00e1 do amanh\u00e3? Talvez, por isso, a personagem de Rejane Faria seja a que melhor traduz o sentimento de ver o pa\u00eds ser assaltado pela extrema direita. Cada sil\u00eancio seu, cada olhar, traduz a profunda preocupa\u00e7\u00e3o pelo que est\u00e1 por vir. Cada suspiro seu, \u00e9 um n\u00f3 na garganta da plateia.<br><br>Outro talento \u00e9 Carlos Francisco; seu personagem \u00e9 um homem que parece muito com os homens que elegeram Bolsonaro, com a diferen\u00e7a que Wellington larga o orgulho besta de lado e em nome do amor que tem pela fam\u00edlia, d\u00e1 a volta e se reposiciona, se reinventa, isso sem deixar de ser quem ele \u00e9. Sem discursos moralistas. \u00c9 bonito que s\u00f3 acompanhar o desenvolvimento do personagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m vale destacar o trabalho de C\u00edcero Lucas, que faz o protagonista Deivid e Camila Dami\u00e3o, que faz a irm\u00e3 Eunice. Respons\u00e1veis por um dos momentos mais ternos do filme, quando Deivid, diz que n\u00e3o quer ser aquilo que o pai quer que ele seja, que ele quer ir para Marte, povoar o planeta vermelho. \u00c9 t\u00e3o bonita a cumplicidade dos dois, que \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil de acreditar que eles n\u00e3o s\u00e3o irm\u00e3os de fato.<br><br>Essa cena \u00e9 a chave do filme, porque tem ali seu tema, o sonho da juventude de ir mais longe. De n\u00e3o deixar morrer dentro de si a utopia, mesmo diante de uma realidade social que parece impossibilitar qualquer avan\u00e7o. Na verdade, devemos nos questionar porque essa cena \u00e9 t\u00e3o forte, um menino sonhar em ser astronauta n\u00e3o deveria causar espanto, deveria ser banal. Mas em nosso Brasil n\u00e3o \u00e9. Apesar de termos dado um importante passo civilizat\u00f3rio no \u00faltimo dia 30 com a elei\u00e7\u00e3o de Lula, o Brasil n\u00e3o vai deixar de ser um pa\u00eds injusto e extremamente desigual da noite para o dia. Temos muito trabalho pela frente. Um menino de periferia que queira ser astronauta vai continuar nos afetando, nos desmontando, por um tempo ainda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final, depois de tanta preocupa\u00e7\u00e3o e luta, o que nos fica \u00e9 a esperan\u00e7a. Sentimento t\u00e3o gasto pelos filmes fam\u00edlia que voc\u00ea v\u00ea por a\u00ed. Aqui ela sobrevive por conta da autenticidade com que a obra \u00e9 constru\u00edda e tamb\u00e9m, por conta da teimosia com que a fam\u00edlia Martins tem de continuar sonhando. Para eles nada parece imposs\u00edvel. Enquanto houver vida, haver\u00e1 luta, afinal, estamos vivos!<br><br>Evo\u00e9 Cinema brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Igor Barradas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os filmes s\u00e3o documentos no tempo. 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