{"id":365,"date":"2010-11-15T20:32:01","date_gmt":"2010-11-15T20:32:01","guid":{"rendered":"http:\/\/matecomangu.wordpress.com\/?p=365"},"modified":"2025-11-24T23:59:28","modified_gmt":"2025-11-24T23:59:28","slug":"mate-com-angu-no-segundo-caderno-do-o-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/matecomangu.org\/site\/mate-com-angu-no-segundo-caderno-do-o-globo\/","title":{"rendered":"Mate Com Angu no Segundo Caderno do O Globo"},"content":{"rendered":"<p>Invas\u00e3o b\u00e1rbara no Segundo Caderno do Globo no domingo dia 07\/11\/10 \ud83d\ude42<\/p>\n<p>E otimamente acompanhados dos Enraizados e da Cia. do Inv\u00edsivel. \u00d3 o texto na \u00edntegra a\u00ed embaixo. \u00c9 noise.<\/p>\n<h3>Na periferia, a Tropic\u00e1lia dos exclu\u00eddos<\/h3>\n<div>\n<div id=\"subTituloAreaMateria\"><strong>Arte e milit\u00e2ncia se misturam fora do per\u00edmetro da Zona Sul em coletivos de cinema, teatro, m\u00fasica e literatura<\/strong><\/div>\n<div id=\"subTituloAreaMateria\"><\/div>\n<div><em><strong>Por Karla Monteiro<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/div>\n<p>Fora do per\u00edmetro da Zona Sul, arte e milit\u00e2ncia est\u00e3o \u2014 cada vez mais \u2014 se misturando. E dando caldo. A coisa acontece em grupo, apoiada em redes, que botam em contato a periferia do Rio com os sub\u00farbios de grandes cidades do mundo inteiro.\u00a0Uma, digamos, Tropic\u00e1lia dos exclu\u00eddos \u2014 em n\u00edvel internacional.\u00a0A hist\u00f3ria \u00e9 assim: a galera se junta e, na parceria, \u201cna firmeza\u201d, faz arte de qualidade.\u00a0O objetivo nunca \u00e9 apenas produzir uma obra, mas interferir, mudar comportamentos, falar para pessoas que, de outra maneira, n\u00e3o teriam acesso \u00e0 cultura.\u00a0S\u00e3o dezenas de coletivos espalhados pelo estado. N\u00f3s fomos conhecer o trabalho de tr\u00eas: Mate com Angu, em Caxias; Enraizados, em Morro Agudo, Nova Igua\u00e7u; e Cia. do Invis\u00edvel, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Em cada um deles, muita hist\u00f3ria para contar.<\/p>\n<p>No galp\u00e3o do Mate com Angu, bem no centro de Caxias, o papo \u00e9 cinema. A turma realiza mostras e produz curtas-metragens, muitos deles premiados em festivais importantes. Do dia 18 ao dia 24 acontece a mostra Angu \u00e0 Francesa, com a exibi\u00e7\u00e3o de 12 filmes feitos na periferia de Paris e de dez obras locais.<\/p>\n<p>A galera do Enraizados, com bra\u00e7os em 17 estados, faz m\u00fasica, cinema, artes pl\u00e1sticas, literatura e pol\u00edtica. Eles mant\u00eam um trabalho social que atende 600 adolescentes e 120 crian\u00e7as em Morro do Agudo.<\/p>\n<p>Em dezembro, o grupo lan\u00e7a uma biografia, com a curadoria da professora Helo\u00edsa Buarque de Hollanda. J\u00e1 na Cia. do Invis\u00edvel a onda \u00e9 teatro. E uma nova moda: apresentar as pe\u00e7as na sala da casa das pessoas. O anfitri\u00e3o tem um \u00fanico compromisso: chamar os vizinhos. No momento, a companhia est\u00e1 circulando pela Zona Oeste com o projeto Caf\u00e9 com Machado.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Era lugar-comum dizer que havia mais vida de rua nos sub\u00farbios do que nos bairros de elite<\/em> \u2014 diz o antrop\u00f3logo Hermano Vianna. \u2014 <em>Isso mudou com a viol\u00eancia. Grades agora existem em qualquer lugar.<\/em><\/p>\n<p>O surgimento dos coletivos \u00e9 uma tend\u00eancia contr\u00e1ria a essa imposi\u00e7\u00e3o do isolamento e da separa\u00e7\u00e3o. Todo mundo cria junto, todo mundo quer ficar junto. E isso tem a ver com um entendimento e um uso ousado dos recursos de cria\u00e7\u00e3o colaborativa no mundo p\u00f3s-internet, p\u00f3s-web 2.0, p\u00f3s-lan houses. N\u00e3o faz muito tempo, o Mate com Angu convidou o (site colaborativo) Overmundo para escolher alguns v\u00eddeos dispon\u00edveis no site para uma mostra em Duque de Caxias. Teve festa, DJ legal, eu fui. Nada surpreendente que essa ideia inovadora tenha vindo da Baixada, e n\u00e3o da Zona Sul. A periferia \u00e9 muito mais voraz diante do novo do que o velho Centro.<\/p>\n<div><strong>Sede de novidade e pol\u00edtica<\/strong><\/div>\n<p>Ex-diretor de teatro, Marcus Vinicius Faustini, autor do \u201cGuia afetivo da periferia\u201d, j\u00e1 fez parte de muitos coletivos do g\u00eanero. Para ele, a arte que vem dos sub\u00farbios \u00e9 mais do que sede de novidade. \u00c9 essencialmente pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u2014 <em>A cultura de periferia n\u00e3o quer s\u00f3 criar representa\u00e7\u00e3o. Ela quer interferir de fato. Para o menino de um coletivo, \u00e9 t\u00e3o importante estar no palco quanto militar. A separa\u00e7\u00e3o entre arte e vida n\u00e3o existe. A principal caracter\u00edstica \u00e9 a rede, que se expressa nos blogs, nos saraus, nos encontros internacionais<\/em> \u2014 comenta Faustini.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Vai ter que haver uma amplia\u00e7\u00e3o das categorias est\u00e9ticas da arte. \u00c9 outra categoria est\u00e9tica que est\u00e1 em jogo. A cr\u00edtica, a academia, ainda n\u00e3o d\u00e1 conta de olhar para isso como arte, porque est\u00e1 muito enquadrada.\u00a0Encaixa as obras oriundas desses movimentos no amador.\u00a0N\u00e3o \u00e9 amador. \u00c9 superprofissional.\u00a0Algo que se pega no ar, com sutileza. Uma interpreta\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo muito sutil. A cultura de periferia \u00e9 pura arte contempor\u00e2nea.<\/em><\/p>\n<p>Chegamos a Caixas no in\u00edcio da tarde de sexta-feira. Sol a pino, calor de esmorecer. A sede do Mate com Angu ocupa um galp\u00e3o coberto com telha de amianto, descaradamente improvisado.\u00a0Em frente, um boteco p\u00e9-sujo, com cerveja gelada.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, v\u00e3o chegando alguns integrantes, todos com latinha na m\u00e3o. Igor Barradas dirigiu o curta \u201cQueimados\u201d, selecionado para o Festival de Bras\u00edlia.\u00a0O filme tamb\u00e9m vai estar na mostra Angu \u00e0 Francesa. Segundo ele, todas as produ\u00e7\u00f5es do Mate com Angu s\u00e3o fruto do suor de todos. Ningu\u00e9m cobra pelos servi\u00e7os, seja dire\u00e7\u00e3o de arte ou capta\u00e7\u00e3o de recursos \u2014 no caso, a capta\u00e7\u00e3o se d\u00e1 entre amigos e simpatizantes. N\u00e3o h\u00e1 patroc\u00ednios. \u201cQueimados\u201d foi o primeiro filme do Mate com Angu feito em pel\u00edcula. Custou R$ 20 mil. Ao todo, a galera tem mais de 30 curtas no curr\u00edculo.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Meu primeiro filme foi \u201cProgresso Primavera\u201d, sobre o bairro de Caxias onde nasci. No lan\u00e7amento, a galera se juntou e falou: \u201cVamos criar um coletivo, organizar nossas mostras.\u201d Isso foi o embri\u00e3o da ideia, em 2002. O Mate nasceu na onda do digital: fazer filme barato e dar um jeito de mostrar \u2014<\/em> diz Igor. \u2014 <em>Com \u201cQueimados\u201d, eu quis experimentar pel\u00edcula. Fiz com o apoio da gente mesmo. E com as minhas economias. Deixei de comprar um carro e fiz um filme.<\/em><\/p>\n<p>Heraldo HB \u00e9 uma esp\u00e9cie de porta-voz da turma. De acordo com ele, o nome Mate com Angu \u00e9 uma refer\u00eancia a uma escola hist\u00f3rica de Caxias, a primeira a ter hor\u00e1rio integral, r\u00e1dio de estudantes e merenda: mate e angu. Quando o coletivo nasceu \u2014 hoje s\u00e3o mais de 20 integrantes \u2014, h\u00e1 oito anos, s\u00f3 organizava mostras, com filmes colhidos por a\u00ed. Um ano depois, em 2003, iniciou a produ\u00e7\u00e3o de curtas. O primeiro filme a fazer sucesso foi \u201cUm ano e um dia\u201d.\u00a0Ganhou festivais e, em 2008, acabou numa mostra em Paris.<\/p>\n<p>O diretor \u00e9 Cacau Amaral, um dos diretores de \u201c\u2019<strong>5xFavela \u2014 Agora por n\u00f3s mesmos<\/strong>\u201d. Com a ida de \u201cUm ano e um dia\u201d para a Fran\u00e7a, o grupo come\u00e7ou um \u201cinterc\u00e2mbio\u201d com coletivos do sub\u00farbio de Paris. O resultado da conversa \u00e9 a mostra Angu \u00e0 Francesa.<\/p>\n<p>\u2014 <em>V\u00e3o vir quatro diretores franceses e v\u00e1rias pessoas que trabalham na produ\u00e7\u00e3o de filmes no sub\u00farbio de Paris. Uma das caracter\u00edsticas do Mate \u00e9 conseguir lotar os eventos. A mostra vai acontecer no Sesc Caxias<\/em> \u2014 diz Heraldo. \u2014 <em>N\u00f3s trabalhamos com um p\u00fablico que nem sabe o que \u00e9 um filme de curta-metragem. A interven\u00e7\u00e3o social \u00e9 muito clara. Estamos trazendo uma est\u00e9tica para mexer. Quando come\u00e7amos, n\u00e3o existia nada em Caxias.<\/em><\/p>\n<p>Do centro de Caxias seguimos para Morro Agudo, em Nova Igua\u00e7u, onde o desamparo \u00e9 mais latente, mais na cara.<\/p>\n<p>Os Enraizados espalham-se por um grande terreno, rodeado por pequenas constru\u00e7\u00f5es, com um p\u00e1tio interno de terra batida protegido por uma velha mangueira. Por todos os cantos, crian\u00e7as e adolescentes em oficinas. Tudo o que se ensina ali aplica-se na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os alunos de design, por exemplo, aprendem a fazer capas de disco, filipetas etc. Os l\u00edderes do peda\u00e7o s\u00e3o Dudu de Morro Agudo e Luiz Dumontt. Dudu \u00e9 a voz da galera. Ele conta que a coisa toda surgiu a partir dele.<\/p>\n<p>Em 1999, Dudu comprou uma revista de hip-hop e passou a mandar cartas paras os leitores da se\u00e7\u00e3o de correspond\u00eancias.\u00a0Mentia: dizia que tinha um grupo no Rio chamado Enraizados.\u00a0Tirou o nome de uma m\u00fasica. A troca de cartas cresceu tanto que ele se viu na obriga\u00e7\u00e3o de transformar a mentira em verdade. Em 2001, reuniu m\u00fasicas que recebia via e-mail e pelo correio. E lan\u00e7ou muuma pioneira colet\u00e2nea de rap nacional, com grupos de oito estados. Da\u00ed para a frente, a coisa cresceu. Os Enraizados est\u00e3o em 17 estados, com cerca de 200 \u201cmilitantes\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Lan\u00e7amos tr\u00eas colet\u00e2neas de rap e um disco na Fran\u00e7a com grupos de l\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p>Agora estamos come\u00e7ando o processo de lan\u00e7ar artistas solo. Vamos fazendo um artista e, com o dinheiro, investindo em outro. Depois que come\u00e7amos a ter visibilidade, dou palestras em organiza\u00e7\u00f5es, fa\u00e7o muitos shows&#8230;<\/p>\n<p><em>Tudo o que \u00e9 arrecadado vai para o projeto<\/em> \u2014 diz Dudu.<br \/>\n\u2014 <em>No come\u00e7o a gente n\u00e3o discutia nada. S\u00f3 reclamava de tudo: preconceito social, falta de oportunidade&#8230; Depois fomos nos engajando<\/em>.<em> Lan\u00e7amos discos o tempo inteiro, fazemos filmes&#8230; As pessoas v\u00eam para gravar um disco e no final todo mundo estuda, discute&#8230; N\u00e3o praticamos arte pela arte<\/em>.<\/p>\n<div><strong>Do local para o universal<\/strong><\/div>\n<p>Em Santa Cruz, a turma da Cia. do Invis\u00edvel tamb\u00e9m n\u00e3o.\u00a0Composta por seis artistas formados pela Escola de Teatro Martins Pena, todos moradores das redondezas, a companhia monta pe\u00e7as que cabem na sala de qualquer vizinho. Agora est\u00e3o em turn\u00ea \u2014 ou de porta em porta \u2014 com uma adapta\u00e7\u00e3o do conto \u201cO caso da vara\u201d. Depois de cada apresenta\u00e7\u00e3o, tem \u2014 literalmente \u2014 Caf\u00e9 com Machado.\u00a0A fam\u00edlia ganha uma obra do autor. E um professor de literatura abre o debate.<\/p>\n<p>\u2014<em> N\u00e3o moramos longe. Longe de qu\u00ea? Podemos discutir o nosso pr\u00f3prio universo. Do local para ser universal. Temos tido um resultado muito interessante.<\/em><\/p>\n<p><em>As pessoas ficam fascinadas<\/em> \u2014 diz Alexandre Damascena, diretor da Cia. do Invis\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 <em>O fato de sermos da periferia j\u00e1 nos torna invis\u00edveis, o que pode ser bom: se n\u00e3o sabem quem somos, tamb\u00e9m n\u00e3o esperam nada da gente. Isso significa que podemos ser o que quisermos, fazer do nosso jeito.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3550 size-full\" src=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1396\" srcset=\"https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_.jpg 800w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_-172x300.jpg 172w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_-587x1024.jpg 587w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_-768x1340.jpg 768w, https:\/\/matecomangu.org\/site\/wp-content\/uploads\/jornal_o-globo_segundo-caderno_101107_-86x150.jpg 86w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Invas\u00e3o b\u00e1rbara no Segundo Caderno do Globo no domingo dia 07\/11\/10 \ud83d\ude42 E otimamente acompanhados dos Enraizados e da Cia. do Inv\u00edsivel. \u00d3 o texto na \u00edntegra a\u00ed embaixo. \u00c9 noise. 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