Valeu, mestre Godard

O que me encantava em Godard é que ele nunca deixou de aprender e ensinar. Godard sempre foi acima de tudo, professor e aluno.

Mesmo exausto, nunca deixou de ser jovem e curioso. O cinema para ele era sempre como uma nova floresta desconhecida a se explorar.

Por isso, foi agora aos 91, a partir do suicídio assistido. Não deixaria a morte ser uma experiência banal. Teria que aprender com ela. Não poderia perder essa última aula.

Um radical, porque seu cinema, era sempre um processo de descoberta. Lutava com todas as forças para não percorrer caminhos já trilhados. Inventava coisas e no filme seguinte os desinventava O cara era ruim, faca no dente. Um chato, mas meu Deus, como chatos como esses são necessários. Para que não nos deixem acomodar.

Uma afirmação dele que faço questão de falar para os meus alunos e que sempre me vem quando vou para o set, é que o “cinema é verdade 24 quadros por segundo”. A câmera não mente. Não adianta tentar tapeá-la. Isso é ouro.

Na década de 70, quando já era famoso, um dos maiores de sua geração, em vez de viver dessa brisa, Godard volta a universidade e cria o grupo DzigaVertov, onde buscava experimentar novas bitolas (já com fitas analógicas) e formatos de produção que buscavam uma direção coletiva, onde a figura do diretor, como indivíduo, não existiria. Ou seja, O cara que ajudou a criar a expressão “cinema de autor”, que mudou a política dos grandes estúdios da época, queria agora implodir o autor. Inquieto como os grandes artistas são, pé no chão como todo professor deve ser.

Godard, desaprendeu, aprendeu e ensinou.

Valeu, mestre ❤

[Igor Barradas]

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Igor Barradas

Igor Barradas é cineasta, educador audiovisual e pesquisador. Integra o cineclube Mate Com Angu, o Gomeia Galpão Criativo e a Circular Filmes.

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