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Filme “Corra!”: terror ou comédia?

A busca de definição do gênero do filme está presente em diversos debates; longa está disponível no Netflix

O filme de Jordan Peele, exibido no Brasil com o nome de Corra! (2017) foi um sucesso mundial de bilheteria, com um lucro de cerca de 252 milhões de dólares. E indicado ao Oscar para concorrer nas categorias de melhor filme, diretor, ator e roteiro original. Ganhou em melhor roteiro escrito por Peele.

Jordan Peele ganhou repercussão como diretor, tendo uma trajetória no humor, com Mad TV e Key & Peele – com Keegan-Michael Key. Dirigiu Us (2019) no gênero terror e debate sobre racismo. E produziu: Infiltrado na Klan (2018) de Spike Lee, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado; Hair Love (2019), curta de animação; e, o aguardado para este ano, A lenda de Candyman de Nia DaCosta.

Mas afinal, Corra!, é comédia ou terror? A busca de definição do gênero do filme está presente em diversos debates – seja pela trajetória do diretor, seja pela opção do diretor em dirigir, escrever roteiro e produzir filmes do gênero thriller. A minha análise é de uma perspectiva sociológica e se debruça nas relações sociais entre brancos e negros numa sociedade estruturalmente racista. Logo pode ser um tema assustador. Pode mesmo ser macabro retratar o que pode ser feito com homens e mulheres pretas/os.

 Corra! é uma sátira seríssima de como uma sociedade, fundada no histórico da escravidão de africanos sequestrados para as Américas, busca permanentemente escravizar a psique de mulheres e homens pretos. 

O “terror” está aí: o quanto é perturbador para pessoas pretas adentrar o espaço dominados por brancos.

A trama do filme se desenrola nos Estados Unidos. No contexto de Barak Obama já ter presidido o país por duas vezes. O filme como produto cultural da vida social se propõe a tratar de determinados aspectos que podem ser destacados de diferentes formas para quem ver. Por exemplo, Spike Lee, declarou que viu o filme primeiro com uma plateia branca e que depois viu o filme com uma plateia negra. O filme conseguiu provocar os dois públicos, com reações distintas em diferentes cenas. E que segundo ele foi o que o fez convidar Peele para participar da produção de Infiltrado na Klan.

Estranhamento para uns e naturalização para outros. Na Introdução de Get Out já é apresenta a questão que quero tratar: um personagem e o seu não-lugar. Um homem negro jovem num bairro de classe média branca. Ele diz ao celular, enquanto tenta se achar, “_estou me sentindo um peixe fora d’água”. Tenta localizar a direção para onde está indo encontrar alguém: O lugar se torna assustador para ele, como um “labirinto” que não encontra a saída e o ameaça.

No filme, como na vida social, cada personagem é forçado a ocupar seu lugar e a seguir um script.

A armação da trama, no primeiro momento, apresenta o casal inter-racial. Chris é negro, e Rose, a namorada branca. Ele é retratado pelas fotos que faz: cenas cruas e melancólicas do cotidiano negro. Ela aparece nas compras da padaria, como uma moça amável. O primeiro diálogo é sobre a ida dele à casa da família dela e o desconforto: “eles sabem que sou negro?”.

Ela é carinhosa e dá garantias que ele não corre perigo: “meu pai teria votado pela terceira vez no Obama”. O que é confirmado posteriormente pelo próprio, Dean Armitage.

Repleto de detalhes, ora mais ora menos sutis, Corra!, recoloca a encenação social na distinção de brancos sobre negros através de: “brincadeiras”; interrogatórios que os Armage fazem a Chris sobre seu pai e sua mãe; da vigilância ao seu “péssimo hábito de fumar”; e sobre uma suposta superioridade cultural. Ao mostrar os cômodos da casa e peças de decoração definidas como exóticas, Dean diz: “É um privilégio poder vivenciar a cultura de outra pessoa”.

A supremacia branca imposta foi confrontada pelos negros nos EUA e no mundo. No filme é apresentada como “o motivo da fama” do patriarca da família Armitage: a derrota do avô pelo corredor Jessé Owens, na qualificatória das Olimpíadas de 1936, em Berlim. Chris solta: “Deve ter sido difícil pro seu pai”. Dean responde com sarcasmo: “Ele quase superou”. É quando os personagens se olham frente-a-frente e Chris interrompe Dean e diz com um sorriso no canto da boca: “Owens venceu na frente do Hitler”. E Dean rebate: “Aparece esse cara negro, e o contradiz (Hitler) diante o mundo todo”.

Chris é afetado em vários momentos pela loucura tramada. Ele vai sacando e intuindo o incômodo. Desde o veado atropelado que o remete ao que venha a ser a sua perda mais profunda, a morte de sua mãe, e o de se sentir só no mundo. A morte do animal que foi tratada com banalização pelo o pai de Rose, pois, segundo ele, é uma praga que deve ser eliminada. A perda de Chris, da sua mãe num atropelamento, é usada pela mãe de Rose, Missy, psiquiatra, na hipnose para sugestionar a dominação psíquica dele.

A trama do filme se desenrola nas tensões aterrorizantes que Chris vive na casa dos Armitage ao encontrar os brancos e também os negros submissos e com os olhares perdidos. Walter, Georgina e Logan parecem enlouquecidos, desencaixados da realidade e são estranhados por Chris. Por que se comportam daquele jeito catatônico e domesticado? O que de macabro aconteceu com eles? Daí para frente é o desenrolar da festa dos brancos que é o terror para os negros.

São as perdas de cada personagem que são exploradas para a subjugação. Walter é o caseiro negro na casa branca, um corpo sem alma, depositário da perspectiva branca, do trabalho braçal que lhe foi imposto naquele lugar. E Georgina, a mulher negra, empregada submissa, colocada dentro da casa branca como um utensílio doméstico dos anos 50. Um corpo negro sem sua alma, sem suas experiências de vida.

O filme nos faz refletir sobre como mulheres e homens pretos são violentamente constrangidos nos espaços dominados por brancos.

As experiências produzidas para subjugar as subjetividades, sobretudo, em momentos decisivos da vida e da sobrevivência. O racismo que incute que homens e mulheres pretos/as são “desajustados”. Ou seja, aqueles que não pertencem ao lugar, ao mesmo tempo, que é conveniente os tê-los como presenças subordinadas.

E isto é enlouquecedor, pois, foram agressivamente submetidos a deixarem quem são, se esvaziaram da história dos seus corpos. Foram negadas as suas memórias das suas trajetórias de mulheres e homens pretos. A subjugação se dá através da exploração física e da dominação psíquica.

Contudo, é Logan, personagem dominado, que num acesso de louca lucidez, a partir do “flash” acionado por Chris ao tirar uma foto, que soa o alarme: “corra!”, “foge!”. E Rod, o amigo do protagonista, fora do espaço branco, crítico à ida de Chris ao ambiente branco dos Armitage, num diálogo constante, é quem pode ajudar a virar o jogo. Corra! Ou contra-ataque para sobreviver.

*Carmen Castro é socióloga, atendeu ao convite do Cineclube Mate Com Angu e escreveu sobre o filme “Corra!” de Jordan Peele.

Edição: Mariana Pitasse

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